Autores Ativistas 

Neil Gaiman e os Campos de Refugiados na Jordânia


Ser um autor de sucesso deve ser delicioso. Ser reconhecido pelo seu talento mais prazeroso é um sonho (meu também). Mas e quando você usa seu tempo, fama e capacidade intelectual pra fazer bem ao mundo? Pois é, aí você vira herói (ou heroína). Seja em nível mundial, nacional ou local, muitos escritores se envolvem com projetos sociais. De campanhas para incentivar a leitura até visitas a crianças com câncer em hospitais, grandes escritores fazem parte do rol de ativistas pelo mundo. Gente grande, como J.K. Rowling, se envolve em causas que nem sempre conhecemos. Mas deveríamos conhecer



Escrever sobre guerra é uma constante dos atuais e famosos livros distópicos de young adult, afinal, quem ainda não conferiu as cenas sangrentas de Jogos Vorazes e Divergente? Mas a realidade não é tão bonita e cheia de glamour quanto as cenas desses livros e filmes.


Na onda das famosas distopias de guerra, quero falar da recente visita de Neil Gaiman; autor de sucessos como O Oceano no Fim do Caminho e Coraline, e roteirista de uma das hqs mais famosas do mundo, Sandman; aos campos de refugiados Azraq e Zataari, na Jordânia. Junto a UNHCR, Agência de Refugiados da ONU, Neil aceitou a proposta de escrever um roteiro sobre a crise dos campos de refugiados. O país já recebeu mais de meio milhão de pessoas que fogem da guerra civil da Síria, e se mantém recebendo todos os dias mais e mais gente que perdeu tudo. 

A Síria é um país que está em permanente estado de emergência desde 1962. Comandado por ditadores há 40 anos, o país suspendeu direitos constitucionais dos cidadãos e em 2011 teve inicio uma revolta popular que se tornou a uma longa e muito prejudicial guerra civil.  Com isso, mais de cem mil pessoas morreram, mais de dois milhões de Sírios fugiram do país e se refugiaram em países vizinhos. É nesse contexto que vamos com Neil conhecer a crise dos campos de refugiados, Azraq e Zataari.


Gaiman expôs sua visão em um artigo do The Guardian, onde nos diz como e por quais motivos decidiu conhecer um Campo de Refugiados. A princípio, lhe interessava saber como era o cenário, e ele nos conta que imaginava "tendas, desertos e um grande campo" e seu choque foi grande quando encontrou, além disso, uma cidade inteira! Embora feita de tendas e em um deserto muito árido, Zataari, o primeiro campo de refugiados da Jordânia, foi feito em duas semanas e tinha capacidade para 5 mil pessoas. Atualmente é uma cidade anarquista com 100 mil pessoas, eletricidade e até mesmo um "prefeito". Mesmo que isso nos faça pensar no Distrito 13 de A Esperança, a UNCHR deixa claro que não gosta dos campos de refugiados. E estão certos! Na opinião de Neil e da ONU (e minha), o dinheiro gasto em campos de refugiados poderia ser usado para melhorar suas vidas em seus próprios países, sem que suas casas, famílias, cultura e direitos de cidadania tivessem sido destruídos. Não é sobrevivendo em lugares onde há escassez de água, alimentos e uma imensa dependência de doações para manter-se vivo que mora a esperança de dias melhores a essas pessoas.
Com as crianças de Azraq.

Após a experiência, Gaiman relatou em seu blog o seguinte: "Eu retornei da Jordânia envergonhado de ser parte de uma raça que trata tão mal seus membros, e simultaneamente orgulhoso de ser parte da mesma raça que faz o seu melhor para ajudar as pessoas machucadas, que precisam de refúgio, segurança e dignidade. Nós somos todos parte de uma grande família, a família da humanidade, e nós cuidamos de nossa família." 

Embora autor de ficção fantasia, Neil, que é conhecido por divulgar inúmeros projetos sociais, faz parte dos heróis. Além de trazer entretenimento e cultura a outras pessoas, se importa com o futuro dos menos favorecidos e pratica o ativismo em vários níveis. Indico que sigam-no pelo twitter @neilhimself e conheçam um pouco mais da obra e da vida deste autor ativista.

E de outros que espero trazer nas próximas colunas!
Até quinta.


As fotos dessa postagem foram retiradas do site do Jornal The Guardian. As informações são do artigo escrito por Neil Gaiman para o The guardian, seu blog pessoal e twitter, além do site da ONU.

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