Marguerite Annie Johnson cantava, dançava e atuava. Mas Maya Angelou foi conhecida por suas palavras escritas, onde traduz em poemas a dificuldade de sofrer diariamente com o racismo e a misoginia. A luta dessa mulher de sorriso fácil e olhos atentos é sua própria vida. Por isso, em homenagem ao seu recente falecimento, é dela o holofote de hoje, em mais uma postagem da série Autores Ativistas.



     Nascida em 1928, Marguerite era filha de um porteiro e uma enfermeira. O apelido Maya foi dado pelo irmão mais velho, que a chamava de "My/Mya Sister". Filha de um lar desfeito em seus primeiros anos, Maya foi estuprada aos oito anos, por um dos namorados da mãe. Um homem chamado Freeman, que embora só tenha passado um dia na cadeia, foi assassinado pouco após ser solto. Acreditando ter sido culpada pela morte de Freeman, ela passou cinco anos de sua vida sem conseguir falar. Anos após o ocorrido, Maya explicou os motivos: "Eu pensei 'minha voz o matou'; eu matei esse homem, por ter dito seu nome. E então pensei que jamais poderia falar novamente, porque minha voz poderia matar qualquer pessoa." De acordo com Ann Gillespie, autora da biografia sobre a poeta, durante os anos em que esteve em silencio, Maya desenvolveu uma memória extraordinária, além do amor por livros e literatura, e uma precisa habilidade em ouvir e observar o mundo ao seu redor.
 
    Mas não era fácil a vida nos anos 40, contrariando as regras vigentes e chocando a família, Angelou teve seu primeiro filho aos dezessete anos, sem ser casada, e trabalhou até mesmo em bordéis. Após diferentes empregos, atuações e dificuldades mudou-se para Gana, na África, onde iniciou a militância com a comunidade de Afro Americanos expatriados. Durante esse tempo conheceu Malcom X, um dos maiores defensores do Nacionalismo Negro nos Estados Unidos e fundador da Organização para a Unidade Afro-Americana, e retornou ao país americano para unir-se a causa. Porém Malcom foi assassinado pouco tempo depois, o que levou Maya a afastar-se de tudo e focar em sua carreira como escritora.
     Em 1968, Maya conheceu Martin Luther King Jr, que a convidou a liderar uma marcha, mas novamente, em algo que a autora de sua biografia considera "uma reviravolta macabra do destino" Martin foi assassinado no dia do aniversário de 40 anos dela. Para fugir da depressão, a escritora voltou-se novamente as palavras e escreveu, produziu e narrou uma série de documentários fazendo a conexão do ritmo Blues com a herança dos afro-americanos. A série foi ao ar na televisão e ainda no mesmo ano, Maya finalmente escreveu sua primeira autobiografia. "I know why the caged birds sings" (Eu sei porque os pássaros engaiolados cantam) foi publicado em 1969 e trouxe a ela reconhecimento internacional e fama com sua literatura. 

Esta foi a primeira das sete autobiografias escritas por Angelou, que ditaram um novo marco na literatura negra, o de colocar-se como sujeito importante o suficiente para estar no centro de seu próprio livro. Escritoras negras eram malvistas e pouco conseguiam algum destaque, nem mesmo enquanto personagem principal da história de sua vida. 
Embora estejamos falando de 1970 sabemos que até hoje há uma imensa falha de representatividade negra nas personagens dos livros, principalmente entre as mulheres. Maya Angelou escreve sobre sua vida, literalmente, e o poema homônimo de seu primeiro livro fala exatamente sobre a prisão das limitações impostas por uma sociedade que se divide e considera que devido a cor de pele ou gênero, um ser humano mereça colocar-se como superior a outro.

Deixo aqui o poema "I know why the caged birds sing" traduzido livremente por mim, para que ressoem as palavras da quem foi considerada a poeta laureate das mulheres negras. Que seja compreendido que não se trata apenas de sobreviver, mas de falar em alto e bom som o que ouvidos privilegiados não conseguem ouvir. 

Eu sei porque o pássaro engaiolado canta

O pássaro livre salta
nas costas do vento
e flutua rio abaixo
até seu fim.
Mergulha suas asas
nos raios laranjas de sol
e ousa reivindicar o céu.

Mas um pássaro que observa
de dentro de sua gaiola estreita
raramente pode ver através
de suas barras de raiva.
Suas asas são cortadas
e seus pés amarrados
então ele abre sua garganta e canta.

O pássaro engaiolado canta
com medo trinado
das coisas desconhecidas.
Mas desejava ainda
e sua música é ouvida
na colina distante.
Porque o pássaro enjaulado
canta a liberdade.

O pássaro livre pensa em outra brisa
e no transitar do vento suave por entre as árvores suspirantes
e os gordos vermes esperando em um gramado sob brilho da aurora
e ele nomeia o seu, o céu.

Mas um pássaro engaiolado fica no túmulo de sonhos
sua sombra berra em um grito de pesadelo
suas asas são cortadas e os seus pés são amarrados
então ele abre a garganta e canta

O pássaro engaiolado canta
com medo trinado
das coisas desconhecidas
mas desejava ainda
e sua música é ouvida
na colina distante
porque o pássaro enjaulado
canta a liberdade

Maya Angelou

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