Por ser professora, escuto frequentemente reclamações sobre as aulas, vindas dos meus alunos. Entre resmungos de "não sei pra que estudar" ou "não serve pra nada essa matéria", penso como é bom que essas crianças tenham uma escola da qual reclamar, e melhor ainda, liberdade para reclamar dela. Infelizmente não é assim em muitos países. Um deles é o Paquistão, um país do Oriente Médio, onde a religião Islâmica domina grande parte do estado e suas leis. E é por lá que soubemos da história de Malala Yousafzai, a menina que aos quinze anos tomou um tiro na cabeça por tentar levar educação a outras meninas, que como ela, foram proibidas de estudar.



Maulana Fazlullah ao centro, líder Talibã no vale do Swat.
O islamismo é baseado no Corão e, como a maioria das religiões muito poderosas, carrega uma parte extremista. Chamamos de fundamentalistas religiosos todos aqueles que acreditam que suas práticas religiosas são a única e absoluta verdade, e levam isso a tal ponto que não diferenciam leis religiosas e civis. Nesse contexto aparece o Talibã, classificado por alguns países como grupo terrorista. O Talibã alcançou um grande poder, principalmente em uma etnia chamada Patchun, e reivindicou para si as áreas onde essa etnia é maioria, como grande parte do Afeganistão e do Paquistão. A cidade de Mingora, no vale do rio Swat, foi dominada pelo Talibã em 2007. Embora o local fosse conservador e menos da metade das meninas na região frequentasse a escola, foi decretado em 2008 que as meninas não podiam mais assistir aulas. As escolas que desobedeceram foram dinamitadas. É preciso conhecer que quando ascendeu ao poder nessa área, o Talibã não apenas repreendeu a educação feminina, mas proibiu que a vacina contra a poliomelite fosse aplicada nas crianças e instituiu punições públicas como chicoteamento. Logo proibiram as mulheres de ir as compras, as meninas de sair as ruas. Um ano depois estavam influenciando a ocorrência de ataques suicidas e "sacrifícios sagrados de bípedes" que equivalia a executar ativistas e soldados Paquistaneses. O Talibã perdeu o governo do vale do Swat em 2009 após uma longa e sangrenta guerra, e embora as coisas já estivessem mais calmas, a região continuava sob custódia das atrocidades dessa Milícia.




Uma das 750 escolas para meninas que foram destruídas pelo Talibã. Peshawar, 2011
Malala Yousafzai
Malala Yousafzai teve uma criação muito diferente da maioria das meninas do Swat e aprendeu com o pai, o professor e ativista Ziauddin Yousafzai, sobre política, história e direitos humanos. Desde muito nova discordava de tradições que limitavam o papel da mulher na sociedade onde vivia e não se enxergava presa a situações que tolhessem sua capacidade de aprender, além de recusar-se a cobrir o rosto. No final de 2008, a pedido de um correspondente local da BBC Malala se voluntariou e começou a escrever um blog chamado "Diário de uma Estudante Paquistanesa", no qual falava sobre a importância de estudar e as muitas dificuldades que o país vivia. A menina escrevia sob o pseudônimo de Gul Makki,mas embora o nome fosse alterado, Malala era facilmente reconhecida por suas opiniões e não tinha medo de levá-las a público, apesar de saber do perigo. Sua primeira postagem foi em janeiro de 2009, após isso um documentário foi gravado para o New York times, e em março o blog foi encerrado. Embora divulgado que a única fonte de exposição de Malala enquanto ativista foi o blog, essa informação é inverídica. Em seu livro, a menina fala que de 2007 até 2009 deu inúmeras entrevistas e, inclusive, ganhou um prêmio que passou a levar seu nome. Assim como ela, seu pai era o porta voz de toda uma sociedade que vivia oprimida entre o descaso do governo e o terror da ideologia e da milícia do Talibã.

Ao acordar do coma, em um hospital em Birminghan, no Reino Unido.
Malala recebeu algumas ameaças anteriores, embora o ataque tenha sido inesperado. No dia nove de outubro de 2009, dois homens com os rostos cobertos pararam o ônibus escolar, perguntaram por Malala e atiraram contra as crianças. O tiro atravessou-lhe a cabeça. Outras duas meninas foram baleadas também. Malala foi transferida de helicóptero para Londres, onde vive atualmente. O caso teve imensa repercussão mundial e após sua recuperação, a menina passou a comparecer a diversos eventos da ONU, agora como embaixatriz Paquistanesa, e concorreu ao Prêmio Nobel da Paz. A situação em seu país melhorou visivelmente na questão da educação para mulheres e 650 das 750 escolas destruídas pelo Talibã foram reconstruídas. Atualmente, impedida de retornar ao país por conta de muitas ameaças do Talibã, Malala insiste em repetir que não é um culpado preso que altera o cenário da situação. Ela sabe que tornou-se um alvo público a ser silenciado, por que muitas pessoas ainda acreditavam que o correto era o Talibã, que embora tenha sido combatido enquanto organização, infiltrou-se no pensamento de grande parte da população do vale do Swat. Apesar de sua região manifestar-se contra ela com frequência,  Malala fala da vontade de voltar ao seu país e participar da luta política.


Seu livro Eu sou Malala (I Am Malala, Cia das Letras) foi lançado em meados de 2013, e conta a biografia da menina, somada a uma emocionante descrição de história, política e problemas sociais enfrentados no país. Uma leitura que recomendo aos meus alunos e a todos que reclamam da necessidade do aprendizado ou da presença da escola em suas vidas. Além disso, é uma excelente fonte de conhecimento sobre a cultura Paquistanesa, as ações "terroristas" e os frequentes conflitos em países que não respeitam a laicidade [lei do estado independente de religiões]. Espero poder resenhá-lo algum dia por aqui.

Até a próxima.

2 Comentários