[RESENHA] Graça Infinita

11/14/2017 Jessie 1 COMENTÁRIOS


Graça Infinita foi um dos livros que li e que posso falar sem qualquer dúvida: me marcou de uma forma completamente inédita. A densidade da história criada por David Foster Wallace é de uma singularidade impossível de não impressionar até o leitor mais exigente.

Neste livro somos levados para um futuro distópico onde Estados Unidos, México e Canadá já não existem mais, esses países foram substituídos pela maior potência já vista na história humana e que agora é conhecida como Organização das Nações Norte Americanas ou  simplesmente ONAN.

Outra grande característica desta realidade distópica é que o continente americano agora é apenas um depósito de lixo tóxico, resquícios deixados pelas pessoas que viveram ali antes e abusaram da natureza sem se preocuparem com o futuro, tornando a vida daqueles que estão lá agora bastante perigosa já que precisam conviver com isso. Há também o problema com os separatistas que usam o terrorismo como forma de tentar conseguir aquilo que querem. Sem mencionar o fato de que a forma de contar os anos agora está nas mãos de corporações multimilhonárias, então os anos não são mais contados em números, mas por seus produtos.

Tendo isso como base somos apresentados aos dois núcleos principais da história. O primeiro é a família Incandenza que é composta por Hal, um estudante e atleta brilhante, mas que acaba aos poucos se tornando alguém viciado em drogas o que, por consequência, acaba deixando-o alienado como a maioria da população. Orin, irmão mais velho de Hal, é um grande ídolo do futebol americano e um completo sedutor e também tem problemas com drogas, já Mario que é o irmão do meio é o mais complicado por suas deformidades físicas e deficiências mentais, mas é o mais otimista dentre eles.

Avril é a pessoa que comanda a casa e sua personalidade é bem peculiar, se por um lado é descrita como alguém dominadora, por outro vemos que ela é bastante promíscua em sua vida pessoal. Quando o marido e pai de seus filhos, James, morre ela é obrigada a assumir a academia de tênis, uma referência para todos que querem praticar o esporte. Bom, por falar nele, James era um cineasta experimental que fazia filmes históricos que nem sempre eram apreciados  você precisa prestar atenção nessa questão que será mostrada em uma das notas de rodapé, ela é importantíssima pro desenvolvimento do enredo. Aliás, preste atenção em todas as notas!

Uma família completamente desfuncional, cheia dos mais variados problemas, mas também permeada pelo afeto sincero trazem para o leitor um ponto de vista um tanto quanto contraditório, às vezes deprimente, mas outras completamente hilária. A complexidade das relações entre eles são dignas de virarem tese de algum estudante de psicologia, e isso não é nem um pouco exagerado.

Acima falei que haviam dois núcleos principais, certo? O Segundo gira em torno de Don Gately, um ex-criminoso e membro dos Alcoólicos Anônimos que também ajuda em uma instituição para acolher viciados. Ele é apaixonado por Joelle van Dyne, ex-namorada de Orin e protagonista de alguns filmes do Incandenza sênior. Uma ligação que não pode passar desapercebida.

Joelle protagonizou o inacabado filme Graça Infinita, de James. A obra cinematográfica acaba se tornando algo totalmente novo: ele entretém tanto que acaba matando as pessoas porque os espectadores simplesmente não conseguem parar de assisti-lo. Fato interessante é que o original está perdido pelo mundo, essa é uma questão muito importante. Esse poder letal que o filme tem interessa muito aos Separatistas, que não exitariam em usá-lo contra os americanos, nem por um segundo.

A primeira coisa que eu tenho que dizer é que Graça Infinita é um livro tão genial e absolutamente crítico, que pode fazer o leitor rir de problemas extremamente sérios. David Foster Wallace criou uma obra prima, cheia de discussões pertinentes e que são tão atuais que tornam o livro ainda mais interessante. Quando decidi encarar as mais de 1.100 páginas escritas por ele, fiquei um pouco receosa de que me entediasse, mas assim como o filme de James Incandenza, o livro de Wallace é completamente viciante, com o ponto positivo que não chega a matar ninguém.

Você pode até tentar não se prender a narrativa, mas é impossível que não fique tão viciado quanto Orin, pois o autor traz tantos questionamentos (alguns respondidos outros não) que você precisa ler e conhecer seu ponto de vista, ainda que venha discordar dele. Por outro lado este livro pode trazer dificuldades para aqueles que, como eu, gostam de linearidade na história. Sim, ele não segue uma linha de tempo, às vezes estamos à frente do tempo presente da história, outras vezes estamos no passado e, logo depois, de volta ao presente. Isso pode ser bem confuso se você não prestar atenção, mas sinceramente acredito que se o livro tivesse sido escrito de forma diferente não seria tão fabuloso.

Algo que também chamou muito a minha atenção foi a complexidade de cada uma das personagens, não da para comentar isso aqui de forma minuciosa porque eu teria que escrever mais de 300 páginas nesta resenha, então tudo que falei sobre eles foi absolutamente superficial. Dentro da família Incandenza, por exemplo, temos vários complexos freudianos e insinuação de incesto, temas nada leves. Joelle usa um véu cobrindo seu rosto e ora é descrita como extremamente bela, ora como deformada em função de um acidente. Sem mencionar Gately, cujas atitudes altruístas contrastam com seu passado criminoso e os Separatistas e suas motivações para querer extirpar os americanos da face da Terra.

Não posso deixar de comentar que fiquei apaixonada logo de cara pela capa nacional da obra e quando ele chegou vi que a lombada era laranja e com o nome do autor e do livro nela. Simplesmente perfeito! A única coisa que realmente não me agradou na edição brasileira da Companhia das Letras foi a ausência das orelhas, isso torna o livro muito mais frágil, tive muito mais cuidado para que as pontas da capa não ficassem danificadas.

De todas as resenhas que já escrevi para o Paraíso Literário esta foi, sem sombra de dúvida, a mais difícil. Precisei escolher falar superficialmente de um livro denso e profundo, que indubitavelmente me marcou de uma forma única, então aqui vai uma dica: não se deixe assustar pelo número de páginas de Graça Infinita! Eu, por exemplo, fui lendo aos poucos e sem pressão enquanto mesclava com leituras mais leves, isso me fez termina-lo mais rápido do que esperava.








Título: Graça Infinita  | Páginas: 1.144Autor(a): David Foster Wallace

 | Editora: Companhia das Letras

1 comentários:

Bruno Laze disse...

Meu livro favorito <3
Ótimos personagens, enredo e cenário! As dificuldades compensam a jornada longa.