[AUTOR DO MÊS] Conteúdo Exclusivo por Gaby Fraga



Sobre um universo bem apresentado


Então, aqui estava eu o dia inteiro de frente para o computador tentando, desesperadamente, fazer a cena que eu tinha planejado para esse post no blog funcionar e eu simplesmente falhei. Talvez não fosse a hora da cena existir, ou talvez nunca seja a hora dela, mas eu sei que acabei me perdendo a tarde inteira no youtube com vídeos aleatórios tentando pensar em algo quando me lembrei, de repente, de meu atual perrengue com meu manuscrito, e pensei que era uma ótima chance de passar algo para a frente.


Imagine sua história, seus personagens e seu universo. Na nossa cabeça é sempre tudo muito claro, sempre tudo faz sentido e quando encontramos algum furo em nossa história, quando consertamos, tudo parece que vai ficar bem. Mas não é bem assim que a coisa funciona. Histórias bem estruturadas na sua cabeça não vão adiantar de nada se, na hora de apresentar essa história ao público, eles não conseguirem absorver o que você criou. E é por isso que os detalhes da apresentação da sua história são tão relevantes.u

Quando meu manuscrito voltou do primeiro passeio com a editora, uma grande parte dele estava marcado com trechos dizendo “descreva isso, descreva aquilo”, e apesar disso ter me irritado a princípio, foi bem fácil ver, em pouco tempo, o que ela queria dizer. Quando você joga a sua história e os seus personagens em um universo não apresentado e não faz o seu texto apresentar esse cenário para quem está lendo, a impressão que o leitor vai ter é de que seus personagens estão andando num fundo de cromaqui com, no muito máximo, alguns figurantes e itens de cenário. Tudo parece morto, inerte. O exemplo mais recente foi de uma cena com meus personagens andando pela vila. Eles estavam andando de um lugar para o outro mas pareciam se teleportar, já que a única coisa que acontecia pelo caminho eram eles conversando. Era a primeira vez de um dos personagens ali, e depois de um primeiro choque, ele se tornou alheio à tudo. Sempre que eu colocava os personagens para andarem pela vila, nunca deixava a vila em evidência, só eles.

E isso um erro. Isso é um erro porque a vila existe, ela está ali. É parte da história. Enquanto esses meus personagens estão indo de uma loja para a outra, tem pessoas interagindo nas portas das casas, crianças brincando. Como são essas casas? Como são essas pessoas? O que é o cenário e os figurantes dessa história? Eles são importantes. Eles são o que vai colocar o seu leitor no universo dessa história, que vai fazer eles entrarem no mundo e estarem lado a lado com seus personagens, não apenas vendo eles do lado de fora. Quando você está fazendo um filme, não arranca esses elementos da filmagem, certo? Quem está vendo o filme percebe o cenário e os figurantes, ou a ausência deles ao redor do nosso personagem. Por que com livros seria diferente?

Eu particularmente tenho medo de descrições. Talvez seja um pouco de medo de me tornar Tolkien e exagerar em coisas banais, mas como diz o ditado, nem 8 e nem 80, e nesse medo de virar o 80 acabei virando o 8. Minha dica de hoje é para que você escritor, não cometa o mesmo erro que eu. Pegue seu texto e tenha a certeza de inserir o leitor no mesmo mundo em que os personagens estão vivendo. Mostre a eles como o universo funciona, como o povo age, onde eles estão, o que estão fazendo… Porque isso acontece. Acontece o tempo todo. Seus personagens vivem em um universo inteiro de pessoas, construções e culturas. Quem está lendo o livro precisa viver nesse universo também.


Comentários
6 Comentários

6 comentários :

  1. Olá, para mim descrição é a melhor coisa no livro e não precisa ser exagerada mais tem que simples e incrível a descrição ao mesmo tempo e é uma ótima dica para quem começar a escrever

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  2. Olá! Concordei com você até o último ponto em que você diz ter medo de descrições por medo de virar um Tolkien. Talvez por eu ser uma fã incondicional do trabalho do professor e amar cada pedacinho mágico do universo que ele criou, eu discorde de você. As descrições quando bem feitas, bem colocadas na história, e quando complementares de maneira correta, contam muito na leitura, e conquistam o leitor de uma maneira super rápida e positiva! Pra quem não leu, ou não gosta dos livros do Tolkien, parece haver exagero nas descrições dele, mas quem conhece a obra sabe o quanto as descrições são partes importantes das histórias!

    Bjoxx ~ http://www.stalker-literaria.com

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  3. Olá, tudo bem?

    Concordo que precisa ter descrição para os leitores poderem estar dentro na história, mas não precisa descrever tudo. Acho que deixando o leitor dentro do lugar, já é o suficiente. Mas tem gente que descreve até a cor da formiga que tá andando pela rua. Ai torna a história cansativa.

    Beijos

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  4. Entendo perfeitamente seus medos, pois possuo os mesmos kkkkkkkkkkkkk
    Acho que o ideal é sempre se jogar e tentar. Afinal é errando que se aprende né? O medo de tentar é bem pior do que o não tentar.

    Xoxo,
    Abby
    Blog Linhas Tortas

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  5. Que tema mais bacana, acho esse debate extremamente necessário, nao é a toa que a revisão é um dos processos mais importantes. Ok que descrição pode ser algo chato e se tornar maçante, mas é preciso considerá-la.

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  6. Gostei muito do texto. Uma super dica para os autores, principalmente os iniciantes. Você falou de vila e me lembrei que recentemente li O Highlander nas Sombras e tem uma cena que a protagonista vai até a vila e fica só nisso, chega na vila, vai na feira e volta para o castelo, ela não descreve a vila e nem a feira. o que não acontece com o castelo, onde mais se passa a história. Como a vila tem apenas uma ou duas passagem, a autora não se deu ao trabalho de descrevê-la. Seu texto me fez lembrar disso. Não que isso tenha influenciado na história, a história é muito boa e recomendo. Mas nessa parte falou algo, e agora eu percebi que foi a descrição da vila e da feira. Parabéns pelo texto e que ele possa ajudar os autores.

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