[AUTOR DO MÊS] Conteúdo Exclusivo por Clara de Assis


Prequel – Faz Amor Comigo?
Clara de Assis.

Quando era criança, acho que aos sete ou oito anos – essa foi à primeira lembrança vívida e consciente que eu tenho –, um dos meus irmãos, que mais tarde entendi que não era bem meu irmão, me ajudou com um pequeno probleminha.
Fiquei de castigo, claro, eu era uma peste. Mas que criança quer ficar de castigo? Eu tampouco. Daí, com toda a minha valentia – aos sete ou oito anos –, fugi para a casa da árvore. A casa ficava no quintal, mas, para mim, era como ter percorrido quilômetros – garota trouxa. E era óbvio que mal alcançava os degraus que foram projetados para os meus irmãos, não para uma criança pequena. Ainda assim, subi e fiquei lá por horas. Parando para analisar friamente, me envergonho disso, pois fiquei sem desenhos, sem brinquedos ou qualquer outra fonte de diversão que eu teria tido se tivesse continuado em meu quarto. Ao final do dia, estava morta de fome e sede, o que eu levei para comer, um pedaço de bolo e uma (1) uva, não um cacho, uma uvinha verde e doce, acabou-se rapidamente.
Então, desci da casa da árvore em busca de comida.
Lá pelo meio da escada, meu pé falseou e caí sobre a mão.
Lembro-me vividamente da dor, tão forte que fiquei sem voz.
Em um piscar de olhos, um dos meus irmãos, apareceu no quintal para me resgatar. Ele disse: “feche os olhos”. Dessa vez, obedecer não era problema, estava de olhos fechados, apertando-os, sentia uma dor horrível.
Meu irmão me carregou para o quarto e me pôs sobre a cama. Sentando-se ao meu lado, balançou a cabeça de um lado para o outro, negando.
— Você é tão teimosa, Amanda...
— Khaim, por favor, não conte para o papai.
— Como é que eu não vou contar, Amanda? Você quebrou o braço e agora preciso levá-la ao hospital, quero que fique quietinha enquanto eu...
— Dói muito. Quero que pare de doer... — choraminguei.
Ele respirou fundo e então disse:
— Eu não conto, se você também não contar.
E daí ele estalou os dedos. E parou de doer. Fiquei tão feliz que me atirei nele em busca de um abraço. Khaim me contava histórias e sempre achei que ele aguçava o melhor da minha imaginação, mas, no fundo, era real. Ele transformava tudo em realidade para me entreter. Eu confiava nele. Ele confiou seu segredo a mim.
Foi quando eu percebi que havia magia de verdade em Khaim.
Mais tarde, soube que ele não era um cara normal.
Mais tarde, soube que ele não era nem um cara, que dirá normal.
Cresci em um ambiente diferente das outras crianças. Tudo parecia possível e ao mesmo tempo improvável e lúdico.



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